O homem acusado de organizar o assassinato do jornalista Carlos Cardoso, em Novembro de 2000, foi finalmente levado a tribunal. Os moçambicanos esperaram durante cinco anos por este julgamento.
Dezembro 29, 2005 de jodoas

Por altura da sua morte, Carlos Cardoso estava a investigar uma fraude de 14 milhões de dólares ligada à privatização de bancos moçambicanos nos anos 90.
O que descobriu certamente deixou inquietos alguns membros da elite política de Moçambique.
Muita gente espera que Aníbal dos Santos Júnior, “Anibalzinho”, implique o filho do antigo presidente Joaquim Chissano.
Fugas
Anibalzinho foi preso, pela primeira vez, em 2002. A única razão por que levou tanto tempo a comparecer em tribunal foi porque fora “ilicitamente posto em liberdade” da cadeia de alta segurança de Maputo.
Acredita-se que, das duas vezes que ele escapou da mesma cadeia, fê-lo com a ajuda de “gente poderosa”.
Depois da sua primeira fuga, foi recapturado na Árica do Sul em Janeiro de 2003 e extraditado para Moçambique apenas algumas horas depois de ter sido condenado à revelia por homicídio. Ele recorreu da sentença.
Em finais de 2004, o Supremo Tribunal ordenou que Anibalzinho tinha direito a um novo julgamento porque o primeiro havia sido feito na sua ausência - apesar mesmo dessa ausência ter resultado da sua fuga da cadeia.
Extradição
Mas Anibalzinho voltou a escapar. Desta vez reapareceu no Canadá, onde pediu asilo alegando perseguição política no seu país.
As autoridades canadianas rejeitaram o pedido e extraditaram-no para Moçambique.
Anibalzinho é acusado de ser o “autor material” do assassinato. Por outras palavras, é acusado da organização do plano que levou à morte de Carlos Cardoso.

As investigações destemidas de Carlos Cardoso poderão ter-lhe custado a vida
Ele não é acusado de ter morto o jornalista pelas próprias mãos. O executor foi Carlitos Rachid, que está a cumprir pena de prisão. Também condenado pelo crime foi Manuel Fernandes, que ajudou no assassinato.
Implicados
O mistério mais intrigante neste caso é quem foi que recrutou os serviços de Anibalzinho.
Durante o julgamento de Carlitos Rachid e de Manuel Fernandes, em 2002, foram apresentados testemunhos segundo os quais Nyimpine Chissano - o filho do então presidente Joaquim Chissano - havia solicitado o pagamento a Anibalzinho do equivalente a 50 mil dólares.
Agora que Anibalzinho está finalmente em tribunal, os moçambicanos estão ansiosos por saber se este fará ou não acusações similares.
Carlos Cardoso nasceu em Maputo (na altura Lourenço Marques) em 1949 e era da terceira geração de moçambicanos de descendência portuguesa.
Vida política
Ele fez os seus estudos universitários na África do Sul antes de se engajar politicamente na luta contra o apartheid - o que levou á sua expulsão daquele país em 1975.
Regressou ao recém-independente Moçambique numa altura em que muitos moçambicanos de raça branca - incluindo alguns membros da sua própria família - fugiam para Portugal e para a África do Sul.
Cardoso identificou-se com os objectivos políticos da Frelimo nos seus esforços para edificar um Moçambique independente e socialista.
Apesar de, em algumas ocasiões, ter entrado em conflito com as autoridades - que queriam um controlo mais centralizado dos media, ele manteve como um crítico mas apoiante leal de um governo que, na altura, estava a ser atacado pela Renamo - apoiada pela África do Sul.
Novos ricos
Os anos 90 trouxeram a paz para Moçambique, mas também uma profunda reestruturação económica e um programa de privatizações.
Carlos Cardoso acompanhou, com incredulidade, o emergir de uma classe que enriquecia devido ao seu acesso privilegiado aos antigos recursos estatais.
E, ao que parece, a sua determinação em expôr as ilegalidades desse processo acabou por lhe custar a vida.
Da BBC Brasil
E o que acontece a quem mexe na porcaria, fica sempre a cheirar mal. Mas honra seja feita a um moçambicano de origem europeia que tentou denunciar o novo riquismo através da falcatrua naquele País




