O meu aplauso para Pedro Tadeu por este seu artigo publicado no DN, o qual ilustra os diversos tiros nos pés que Cavaco Silva dá

O professor Aníbal Cavaco Silva está sempre a lembrar as suas “origens humildes” e fala, com frequência, dos tempos de jovem adulto, da vida disciplinada, de estudo e trabalho que iniciou o seu percurso. Inúmeras vezes ouvimo-lo distanciar-se da classe política, colocando-se sempre noutra classe de pessoas, apesar dos mais de 30 anos de participação activa, ao mais elevado nível, na condução dos destinos do país.

O Presidente da República está sempre a recordar-nos que é um homem do povo e procura, em todos os momentos, sublinhar o contacto que julga manter com as suas raízes “genuínas”, tentando ligar-se a algo que terá deixado para trás há qualquer coisa como 50 anos. A descrição que este homem faz de si só próprio conhece apenas uma variação ao mote da raiz popular – o orgulho no percurso de académico e de economista, na esperança de obter o reconhecimento de entrada na classe dos sábios

Cavaco Silva não quer ser da classe política. Não quer ser da classe dos ricos. Não quer ser da classe dos poderosos. Não quer ser da classe burguesa. Não quer ser aristocrata. Quer ser da classe popular e da classe dos sábios. Mas, entretanto, passou 30 anos a pisar passadeiras vermelhas em palácios de todo o mundo, passou 30 anos a ver banqueiros, empresários, poetas, artistas, filósofos, políticos, músicos, nobres, outros falidos, jornalistas, professores, médicos, advogados, estadistas e todos os melhores representantes de todas as classes superiores a desfilar à sua frente, ouvindo-o, curvando-se, bajulando-o, adorando-o. Passou 30 anos a conquistar e a usar o poder. A infância de Boliqueime ficou tão longe…

Cavaco Silva fala muitas vezes em nome do povo, das sua dificuldades, das suas misérias, solidário. Mas, à razão de 10 mil euros por mês, não consegue já ver o povo. Não é um problema de carácter ou de falta de honestidade intelectual. Cavaco perdeu-se de si próprio, entre as saudades da sua origem e o orgulho da sua conquista. Cavaco perdeu, classicamente, a consciência de classe.

Diz o mito que Maria Antonieta, rainha de França, respondera, sobranceira, a um pedido de pão feito por pobres: “Não têm pão? Comam brioches”. Diz a história que isto não se passou, que ela até se preocupava genuinamente com os miseráveis das ruas, vislumbrados do alto da sua carruagem, mas que a Revolução Francesa, a raiz da democracia, se construiu também em cima dessa discrição de arrogância cínica, ignorante, mais tarde vingada a golpe de guilhotina.

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