Hoje, depois dum encontro com um amigo que desabafou comigo a situação actual do país aconselhei-o a mandar-me a manifestação da sua raiva, aqui vai

CARTA ABERTA AOS PORTUGUESES

Amigos e companheiros do mesmo barco que é Portugal.

Antes do mais deixem-me dizer-vos quem sou. Um cidadão anónimo que vem percorrendo um trajeto de desesperança, de ver tornadas em certezas, as promessas que sempre lhe foram feitas por quem tem conduzido esta nau. Promessas de felicidade, de paz e de equidade na repartição das benesses e dos sacrifícios que a vida pode comportar, e que nunca foram cumpridas

Um cidadão com mais de oitenta anos de caminho, igual a tantos de vós, que se vê defraudado com a palavra “Esperança” que lhe ensinaram em menino.

Um cidadão que, como muito bem disse o Senhor Professor Doutor António Nóvoa na entrevista que lhe fizeram na Rádio Televisão Portuguesa em 3 de Setembro de 2012, faz parte duma “sociedade pacífica de revoltados”.

Sim! Sou também um revoltado silencioso que, tidos em conta os caminhos para onde, desde há muito, vem sendo empurrado o meu país, e frente àquela frase lapidar, ousou tresmalhar-se, hoje, do rebanho, para reavivar o grito de José Régio:

“Sei que não vou por aí!”

O meu desagrado fundamenta-se, essencialmente – como o de vós, por certo – na constatação de ver o avolumar-se, dia após dia, a dimensão do fosso entre ricos e pobres, entre os privilegiados da sorte e os que vão descambando na miséria obscura, entre os que se sentam nas fofas cadeiras do poder sem nada produzirem, se não, discursos e saliva, e os que mendigam o pão da boca e o pão do trabalho!

Num panorama que me parece de prenúncio de vendaval, num mundo em que grande parte dos desempregados e dos pensionistas só sobrevive pelo recurso à mendicidade encoberta junto de familiares e amigos (alguns, como eu, tendo já desistido, até, de gastos indispensáveis de farmácia), mostra-se, muito urgente, providenciar para que a justiça social retorne aos parâmetros da decência.

Há que arrepiar caminho e saber quem, com as suas insuficiências conduziu este país a uma situação de pré-falência!.Para se poder separar o trigo do joio!

Há que saber o porquê de, a uns, nunca lhes ter faltado o pão na mesa, enquanto outros a encontram sempre vazia!

Há que esclarecer corrupções, compadrios, favoritismos, e dar transparência cristalina a muitos segredos que sempre foram escondidos do cidadão comum, para que, este, com o conhecimento da verdadeira verdade, possa fazer o expurgo necessário, e corrigir, honestamente, os seus caminhos para o futuro.

Há, essencialmente, que arregaçar as mangas e, sem abandonar a filosofia pacifista, mostrar ao mundo que os cravos de Abril ainda não murcharam de todo!

Vós, amigos, a quem me dirijo, por certo, me perguntareis: Como?!

Eu … antecipo a minha resposta.

E começo por dizer-vos, a título de mero exemplo:: Nunca tomei conhecimento (e vós também não) de que as despesas do Estado tivessem começado, pelo menos que só em projeto, por uma redução significativa do número de deputados da Assembleia da República, para se corrigir e inverter o sinal da nossa dívida pública.

Nunca tomei conhecimento (e vós também não) de que as mordomias de automóvel pessoal e respetivo motorista, atribuídas a figuras gradas da governação, tivessem sido abolidas, como exemplo salutar numa busca de redução de gastos ao erário público.

Nunca tomei conhecimento (e vós também não) de que os representantes do povo tivessem abdicado, voluntariamente, das suas remunerações, até ao limite dos rendimentos que auferem na sua vida privada, buscando, com isso, contribuir para a eliminação do desequilíbrio em que o país vai vivendo.

Nunca tomei conhecimento (e vós também não) de alguma vez ter sido pensado, na governação, que se processa, nas pensões sociais mais degradadas, a um aumento percentual da mesma ordem ou semelhante ao que foi posto em prática, em tempos, nas remunerações dos deputados, feita por eles próprios a si mesmos..

Contrariamente …

Conhecemos – bem, por demais! – o volume astronómico do desemprego, com as consequências dramáticas que lhe estão adjacentes.

Conhecemos, o inverosímil dos cortes de subsídios de férias e de Natal dos mais ou menos necessitados da função pública.

Conhecemos, vagamente, a política de financiamentos a uma banca que sempre apresentou resultados positivos que se cifram em muitos milhões, sabendo, em simultâneo, que a valorização das pensões dos velhos reformados se medem mensalmente pela dimensão (ou quase) de alguns cêntimos do custo duma simples chávena de café.

No fundo, sabemos – porque nos toca vivamente na pele – do quanto nos custa a todos nós, manter a cabeça de fora no lodaçal em que este país se tem vindo a tornar.

Miséria e fausto patenteados, lado a lado, impostos por uma austeridade que tem costas muito largas, num desequilíbrio insustentável, degradante e injusto, decretado por uma chusma de governantes que nos têm desgovernado desde há décadas, analisados por uma cambada de comentadores políticos que sempre aparecem como salvadores da Pátria, e consentidos por uma liberdade bacoca no palácio de S. Bento, onde, às vezes, roçam o limite da injúria alguns dos discursos que lá são proferidos.

No dia sete deste mês, a situação agravou-se ainda mais, quando o primeiro ministro nos veio anunciar pelos ecrãs de televisão, novas reduções nos proventos dos mais pobres e da massa trabalhadora ao serviço público e privado, com o aumento de onze para dezoito por cento na taxa a pagar à Segurança Social!

E fê-lo, escandalosamente, sem atender ao que disse na mesma televisão o Senhor Professor Doutor Freitas do Amaral, dois ou três dias antes, ao apontar que, para se conseguir algum desafogo financeiro, seria altura de pensar naqueles cujas remunerações ultrapassam os dez mil euros mensais!

Vergonhosamente, até, sem dar ouvidos às diretrizes do próprio Presidente da República, que não se tem esquecido de afirmar (muito pela rama) a necessidade de pedir sacrifícios ao capital, já que o trabalho tem sido, sempre o bode espiatório dos desmandos da governação!

Esta última postura do atual governo, pela falta de justiça, a patentear que quem tem o poder na mão, nunca teve de mendigar, na vida, o que quer que fosse para não morrer de fome, e pela afronta que constitui à própria vida, a consideramos profundamente insultuosa àqueles que, “pacificamente”, têm tolerado o intolerável.

Responsáveis por este estado de coisas?!

No fundo … somos todos nós!

Uns, porque, com a sua propensão para vergarem a cerviz nunca ousaram atear o lume brando da fogueira para verem cozido o seu pão. Outros porque, à sombra duma democracia incipiente, se foram aproveitando de algumas brasas para as puxarem à sua sardinha.

Triste e doloroso panorama que urge ser retificado urgentemente!

E pergunta-se:

Que medo há em tributar as transações de bolsa, tantas vezes fonte de chorudos proventos obtidos, indiretamente, sem o suor do rosto dos beneficiários?!

Que medo há em tributar os rendimentos da banca e das empresas mais rentáveis?!

Que medo há, em onerar, um pouco que seja, os preços dos bilhetes de entrada nos espetáculos públicos (em especial no futebol, nas touradas e nos concertos musicais para a juventude, com recintos quase sempre bem cheios) onde só entra quem tem posses para pagar?!

Sim! Que medo há?!

Que fujam os artistas?! Que se desviem ardilosamente os capitais e os valores mobiliários, para outros países?! Que se acentue o invisível do branqueamento do dinheiro?!

E não haverá para isso, a possibilidade de legislação punitiva que castigue severamente quem o faça?!.

Neste quadro impensável em que vivemos hoje, criado e consentido por quem nos comanda e nos comandou, está bem patente e à vista, a verdade nua e crua da filosofia do “princípio de Peter”

“Todos os homens têm um limite de capacidade intelectual que, ultrapassado, demonstra a dimensão da sua verdadeira pequenez”.

E trazemos aqui, como exemplo perfeito desta citação, o desempenho de uns quantos governantes, entre outros, que subiram mais um degrau do que aquele em que deveriam ter ficado, para poderem ser úteis ao país: Vasco Gonçalves, Pedro Santana Lopes, José Sócrates. Pedro Passos Coelho.

Vergonhoso! Profundamente vergonhoso o espetáculo que Portugal tem estado a dar ao mundo, nas últimas décadas! A macular nomes como Nun’Álvares Pereira, Vasco da Gama ou Camões!

E é o povo, somos nós todos, os cidadãos anónimos sem voz, que temos de agarrar nas armas ao nosso dispor, para corrigir desmandos, alterar rumos e alinhar o leme da barca onde navega esta Nação!

Daí, este meu grito silenciioso! É hora de se agarrarem as armas! As armas que tivermos à nossa disposição!

Armas?!!!

Armas! Sim! Lembro-vos que a nossa: melhor arma poderá ser … a caneta!

Já pensaram, meus irmãos, o que aconteceria em Portugal se, manifestando um desagrado coletivo pelos caminhos para onde temos sido empurrados todos nós, nas eleições autárquicas, legislativas ou presidenciais, fôssemos cumprir o dever cívico de depositar o nosso voto nas urnas, marcando o boletim, simplesmente, com uma cruz, de alto a baixo, anulando-o em sinal de reprovação a todos os candidatos?!

Imaginam que, com uma maioria de zero vírgula qualquer coisa por cento no todo do escrutínio, alguém teria o atrevimento e a veleidade de se considerar legalmente eleito?!

A sugestão aqui fica! Aproveite-a quem quiser! Eu, por mim, vou fazê-lo, como já o fiz anteriormente! Porque descreio, hoje, de todos os partidos e de todos os políticos a quem foi dado tempo demasiado, principescamente remunerado, para mostrarem o quanto valem e o quanto respeitam as suas palavras das campanhas eleitorais!

Deixem-me, porém, dizer-vos – só a finalizar – que não sou tão ingénuo que acredite que, todos sem exceção, ireis aproveitar o alvitre, para que o momento não se perca. Sei que a ousadia, neste mundo, só vai cabendo a quem não tem absolutamente nada a perder, a uns quantos aventureiros que têm as costas quentes,de alguém, e a outros tantos que ainda aspiram a ocupar as cadeiras da governação que fiquem vagas.

Não pretendo, com esta carta, dar uma bofetada sem mão, a quem quer que seja! Antes, e bem ao invés, a intenção subjacente no que atrás fica dito, é, de algum modo, a de manifestar publicamente o meu descontento pelo caminho errado que têm posto à minha frente e tentar acordar a gente sem nome que me leia, dum marasmo doentio que, hoje, e com um cheirinho a infantilidade, é rotulado, em comum, de “pacifismo revoltado”.

Termino esta longa carta, reafirmando-vos, apenas:

“Sei que não vou por aí!”

João Baptista Coelho

Setembro, 2012.

 

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