Tem toda a razão a autora deste artigo de opinião publicado no DN

Perder, de repente, 60% a 90% dos rendimentos é uma enormidade, seja para quem for: sobre isso, que não restem dúvidas. Que estamos perante um abuso fiscal, também é inegável: e a dimensão desse abuso tem de ser vista de todas as perspetivas, sobretudo a dos abusados, e não apenas sob o chapéu populista dos “ricos que paguem a crise”. Que todas as vítimas do choque de impostos deste Governo devem protestar, também é um direito mais do que legítimo. Mas tenhamos todos a noção do ridículo: colocar Filipe Pinhal, ex-administrador do BCP, envolvido em vários processos judiciais, cuja pensão mensal será de mais de 46 mil euros, a liderar um movimento de reformados indignados contra a contribuição extraordinária de solidariedade, é um absurdo. A iniciativa parecia até ter sido um golpe de génio de Vítor Gaspar: autodescredibilizou-se de imediato, tornou-se numa anedota nacional e conseguiu o objetivo contrário ao pretendido, mais do que justificando a medida governamental que se diz que o Tribunal Constitucional vetará. Por mais que Pinhal e os 70 associados do movimento argumentem que lhe estão a fazer cortes em pensões privadas, precisam descer à terra. As suas reformas, decididas num círculo de amigos restrito do qual todos saíram a ganhar, são pagas pelos bancos que o Estado está agora a financiar com o dinheiro de todos nós. E há outros milhões de reformados, que cumpriram escrupulosamente os seus descontos, o seu contrato social, a quem foram feitos cortes em pensões abaixo do limiar de sobrevivência. Os limites da decência foram ultrapassados.

Os tansos da Europa

Regatear é uma arte, faz parte da cultura dos comerciantes árabes, que a praticam como ninguém. Neste mundo global, a moda parece estar agora a ser adotada na relação de entreajudas na União Europeia, o que já de si é lamentável. Pior só mesmo existir quem nem sequer perceba as regras, que são básicas: pedir cem, oferecer um e fazer negócio mais ou menos pela metade. A Irlanda não teve dúvidas: bom negociante, perdão, bom aluno, esticou a corda e fez o pedido máximo, a extensão dos prazos dos seus empréstimos por 15 anos, visando conseguir doze ou dez. Portugal preferiu o papel do cliente sério, honesto, subjugado: não só criticou de imediato a ambiciosa margem pedida pelos irlandeses, como se ficou pela oferta mínima – e desculpando-se por a fazer -, de cinco, dez anos talvez. Não usou a legitimidade, que ganhou ao cumprir ao milímetro, e até mais além, o que lhe foi imposto. Nem sequer se aliou, como há muito deveria ter feito, com os outros países em risco, para juntos negociarem em posição de força com os credores internacionais. Isto não mostra seriedade, mostra pequenez. E sabemos como acabará: a Europa olhar-nos-á de cima e ver-nos-á, no nosso nanismo económico, como os desesperados, de mãos estendida, pela ajuda/esmola que só ela pode oferecer. E fará o que qualquer comerciante faria estando em vantagem: o melhor negócio para si. Se Vítor Gaspar não tivesse experiência nos meandros da Europa financeira e económica, ainda se dava desconto. Mas depois de errar todas as previsões para o País, ainda nos colocar como tansos começa a ser demais!

As palavras das elites

“Andamos sempre a mamar na teta do Estado”; “É assim tão complicado pôr os desempregados a tratar das matas?” Estas duas frases, indignações, podiam ter sido ouvidas em qualquer conversa de café, ditas por um velho do Restelo num jardim ou ser atribuídas a um taxista preso na hora de ponta da capital. Mas são da autoria do segundo homem mais rico do País, Alexandre Soares dos Santos, e de João Salgueiro, ex-ministro, agora membro do Conselho Económico e Social. E são apenas dois exemplos de declarações públicas polémicas, inapropriadas ao momento em que vivemos, mal pensadas – por muito que na sua essência algumas sejam verdadeiras e até defensáveis -, ditas por membros importantes da elite do País nos últimos tempos. Que começaram com o próprio Presidente da República a lamentar-se das suas reformas, continuaram com os impropérios de António Borges aos trabalhadores e aos empresários, passaram pelas inqualificáveis comparações e certezas de Fernando Ulrich e até incluíram a solidária Isabel Jonet. Ou seja, vieram de quem mais se esperava bom senso e capacidade de diálogo perante uma sociedade que sofre as mais duras medidas de austeridade da democracia. É nestas alturas que as qualidades dos líderes e das elites se devem evidenciar. Mas a reação à situação atual revelou, destapou, uma outra realidade. E isso ajuda também a compreender o estado a que Portugal chegou.

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