Mais um aplauso para este artigo de opinião no DN do Pedro Marques Lopes

por PEDRO MARQUES LOPES 31 março 2013

1 José Sócrates afirmou, na entrevista que constituiu o prefácio às suas aparições semanais na RTP, que vinha para tomar a palavra e participar no debate público. É ridículo ter de o dizer, mas está no seu direito. As reacções ao seu regresso à televisão mostraram bem o receio que muita gente – que andou para aí a bater no peito dizendo-se grande defensora da liberdade de expressão – tem, de facto, por esse valor democrático.

A verdade, porém, é que esta passagem de Sócrates a político comentador não dignifica a instituição primeiro-ministro. E deviam ser os homens que exerceram essa função os seus mais activos defensores. Alguém que já teve esse mandato não pode actuar depois de o abandonar como se tivesse sido apenas um passo na sua vida. Ser o máximo responsável pela condução duma comunidade acarreta responsabilidades que se pronlongam após o abandono do cargo.

Alguém que exerceu o mais importante cargo político do País não fica obrigado a terminar a sua carreira política. Mas se a quer prosseguir não o deve fazer comentando-se ou actuar politicamente como se as suas palavras não tivessem um enorme efeito no espaço público. Um comentador político, por muita influência que tenha, pode ignorar as possíveis consequências, um antigo primeiro-ministro, não. Um primeiro-ministro chega a esse cargo através do regular funcionamento de instituições democráticas, partidos, Assembleia da República, e deve ser dentro deles que deve actuar num eventual regresso à política. Claro está que fazer política na televisão não porá em causa a seriedade com que José Sócrates exerceu as suas funções (concorde-se ou não com ele, pense-se ou não que foi um bom ou mau primeiro-ministro) ou colocará em causa duma forma radical a dignidade da instituição. Mas ao fazê-lo devia assumir-se como político de corpo inteiro e não mascarado de comentador (não valerá a pena lembrar que ter um ex-primeiro-ministro comentador é uma originalidade portuguesa face a outras democracias maduras).

Como nenhum outro político português em democracia, José Sócrates foi responsabilizado por todos os males do mundo, insultado e alvo dos mais inqualificáveis ataques pessoais. Também não deixa de ser verdade que, em termos políticos, o seu partido deixou que se cimentasse a ideia na comunidade de que ele era o único culpado pela crise que atravessamos, e os tribunais e a própria comunidade assistiram impávidos e serenos aos mais sórdidos ataques pessoais e intromis- sões na sua vida privada. Sócrates pode argumentar, como argumentou, que não podia deixar de responder àquilo que apelida de mentiras sobre a sua governação. Mas em democracia há dois julgamentos políticos fundamentais: o voto e a história. Um deles já foi feito, o outro leva mais, muitos mais, anos a concretizar-se. E não será o contraponto que Sócrates diz ir fazer à “narrativa da direita” (como se só houvesse uma) que o absolverá ou o culpabilizará face à história.

2 Sim, estamos todos de acordo: Sócrates quis contar a sua verdade e ajustar contas com Cavaco Silva – que é um péssimo exemplo quando se fala de preservar a dignidade das instituições, já agora. O principal efeito político deste início de conversa, porém, deu-se no Partido Socialista: a sede da oposição passou do Largo do Rato para o edifício da RTP.

Não acredito que o eleitorado tradicional do PSD, CDS e PCP (já o do BE é outra coisa) tenha sequer começado a dar o benefício da dúvida a Sócrates depois da entrevista. Duvido muito também que aquele eleitorado que flutua entre o PS e o PSD tenha ficado minimamente convencido das razões do antigo primeiro-ministro. Não creio ainda que os abstencionistas militantes e demais descontentes com o actual sistema político tenham encontrado o seu D. Sebastião. Agora, o eleitorado socialista, esse, levou um gigantesco abanão. Não foi preciso Sócrates ter criticado Seguro, até lhe fez um indirecto ténue elogio. Não foi preciso esperar muito para ver de novo um político profissional bem preparado e a dominar todos os campos do discurso político. Bastaram cinco minutos para os socialistas e demais gente da área, e não só, terem sido recordados que Sócrates é dum campeonato a que António José Seguro não pertence. Nem ele nem nenhum dos políticos no activo, a bem da verdade. O anterior líder do PS tem mais carisma, força, capacidade de persuasão no dedo mindinho que o actual dos pés à cabeça.

No próximo Congresso do PS teremos um gigantesco fantasma a pairar. Falar-se-á do que se falar na tribuna, mas a conversa em todos os cantos será outra: Sócrates. Sócrates não retirou apenas a liderança da oposição a Seguro, relançou a questão da liderança do PS. Para quem? A ver vamos.

 

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