Muito interessante este artigo de opinião de Fernanda Câncio publicado no DN

Existe no Código Penal o crime de “ofensa à memória de pessoa falecida”. Prevê prisão até seis meses para quem, “por qualquer forma, ofender gravemente a memória de pessoa falecida” – ou seja, lançar, no espaço público, piropos impróprios a um morto. Nas diversas colunas de opinião que têm exprimido o choque dos seus autores com reações menos elogiosas à morte de António Borges, não houve, porém, menção ao artigo 185.º do CP. Na falta disso comentaristas como João Miguel Tavares (JMT) e a historiadora Fátima Bonifácio resolveram postular, a partir do contraste entre as reações ao passamento de Borges e Miguel Portas, que a esquerda é má e ordinária e a direita boa e nobre. Bonifácio prova isso por A+B, com uma catilinária sobre os crimes do estalinismo e o facto de o PCP nunca ter pedido desculpa por eles (era isto, não era?). No fim do texto lá admite que a esquerda não se resume ao PCP mas já não tendo espaço resolve a coisa certificando que é tudo igual. JMT, que escreveu primeiro, tinha dado o mote: “Demasiados homens de esquerda olham para demasiados homens de direita como inimigos a abater.” Sem dúvida, nem é preciso ir buscar os crimes de Estaline: basta olhar para os últimos anos em Portugal e ver como os homens de direita foram vilipendiados e perseguidos pela canalha de esquerda. De apodos de Hitler e Drácula a ataques à vida privada, passando pelo preço “de saldo” que pagaram pelas habitações, certificações de que os descendentes devem ter vergonha deles, acusações de corrupção e até de escutas à presidência da República, não houve nada de que a esquerdalha do PSD e CDS não lançasse mão para abater os seus inimigos de direita. Felizmente, temos JMT para denunciar esta vergonha de “não ser possível [à esquerda, claro] discordar sem demonizar”, o que impede o País de ter “um debate político que saia da sofisticação do jardim de infância”.

É pois a infantilidade que nos impede de perceber que a diferença nas reações às mortes de Portas e Borges nada tem nada que ver com a diferença entre o que fizeram em vida. A mesma infantilidade que nos leva a olhar para Borges e ver uma personagem de simbolismo talvez ímpar cujo percurso passa, no auge da crise internacional, da administração da financeira Goldman Sachs para o FMI, onde supervisionou os resgates europeus, e daí para, como ministro à solta do governo, aplicar os termos do resgate português. Há lá coisa mais infantil do que esta fábula da raposa e do galinheiro? Ou que questionarmo-nos como, com uma esquerda tão vilmente persecutória, pôde um homem de direita como Borges safar-se com isto tudo e lograr ainda a proeza de estar dois anos a trabalhar para o Governo mais pequeno e poupado e transparente de sempre sem se saber quanto ganhava? Criançola que sou, é no facto de isto ter sido possível que vejo ofensa e insulto. Mas é a Portugal, que, como não está (ainda) morto, pode ser ofendido à vontade.

 

0 Responses to “Muito interessante este artigo de opinião de Fernanda Câncio publicado no DN”



  1. Deixe um Comentário

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s




Arquivos

Central Blogs

congeminações

Central Blogs

Categorias

congeminações

  • 693,439 hits

4shared

Top Clicks

  • Nenhum
Estou no blog.com.pt - comunidade de bloggers em língua portuguesa
Listed on BlogShares
Powered by BannerFans.com
Twingly BlogRank

twitter

congeminacoes

Follow me on Twitter


%d bloggers like this: