O “Se” de José António Saraiva publicado no Sol

Opinião

Se

Se Mário Soares tivesSe vencido as eleições presidenciais de 2006, teria sido certamente reeleito em 2011 e estaria hoje no Palácio de Belém.

Se José Sócrates tivesSe conSeguido aguentar um pouco mais o pedido de Resgate, talvez ganhasSe as legislativas (recorde-Se que chegou a estar à frente nas sondagens) e Seria hoje primeiro-ministro.

Se Sócrates fosSe hoje primeiro-ministro e Soares fosSe Presidente da República, António Pinto Monteiro teria sido certamente reconduzido na Procuradoria-Geral da República.

E Noronha do Nascimento permaneceria possivelmente na presidência do Supremo Tribunal de Justiça.

Quanto ao Parlamento, teria talvez a chefiá-lo não Assunção Esteves mas Maria de Belém ou Edite Estrela.

O cargo de ministro da Presidência, com o pelouro da comunicação social, poderia Ser ocupado por um homem como Daniel Proença de Carvalho.

Pedro Silva Pereira era um bom nome para ministro da Administração Interna, com a responsabilidade sobre as polícias.

E o ministro dos Negócios Estrangeiros Seria, por exemplo, Augusto Santos Silva.

Na presidência do BES estaria – como está – Ricardo Salgado.

Armando Vara continuaria no BCP (que não teria sido vendido a angolanos), mas eventualmente já Seria presidente do banco.

Carlos Santos Ferreira poderia ter regressado à Caixa Geral de Depósitos.

No BPN, que também não teria sido vendido, permaneceria Francisco Bandeira.

E na PT continuaria Henrique Granadeiro, talvez com uma influência alargada.

Na EDP, onde os chineSes não teriam entrado, continuaria igualmente António Mexia, com mais poderes.

Na RTP, Emídio Rangel (que já conhecia a casa como director de programas e de informação) poderia Ser agora presidente do ConSelho de Administração.

O negócio da compra da TVI pela PT teria finalmente avançado, e Rui Pedro Soares Seria uma hipóteSe para a presidência.

A Controlinvest continuaria nas mãos de Joaquim Oliveira, Sendo as suas dívidas à banca mais uma vez esquecidas.

O SOL teria provavelmente fechado. Por que falo de todas estas hipóteSes e de todas estas pessoas?

Porque, na sua grande maioria, estiveram na apreSentação do livro de Sócrates sobre a tortura.

Tema, diga-Se, que é um tanto insólito escolhido por um primeiro-ministro paranão dizer deslocado.

Seria natural que Sócrates aproveitasSe a sua experiência do cargo para a elaboração da teSe.

É Sempre uma mais-valia juntar, a uma investigação teórica, o conhecimento concreto da realidade em análiSe.

Sócrates poderia fazer um trabalho, por hipóteSe, sobre a evolução da política europeia na última década, ou sobre as relações Norte-Sul, ou sobre austeridade e crescimento económico, ou sobre a estabilidade política, ou sobre o mar, ou sobre as relações lusófonas, enfim, havia tantos temas sobre os quais Sócrates poderia falar com um mínimo de experiência e conhecimento directo dos problemas – e vai falar sobre um tema que não conhece directamente…

E, ainda por cima, vai meter-Se com os americanos – numa altura em que Europa e América têm de juntar esforços para combater a criSe que ameaça o Ocidente.

A escolha do assunto, insisto, é dificilmente compreensível, a menos que o tema da tortura fascine Sócrates – vá lá saber-Se porquê…

Mas, dizia eu, a maioria daquelas mil pessoas que foram ao MuSeu da Electricidade não tinha por objectivo assistir ao lançamento de um livro – mas sim participar num acto político.

EsSe acto político foi o regresso de Sócrates à política.

Os preSentes foram dizer directamente a Sócrates: «Nós apoiamos-te!». E foram dizer-lhe indirectamente: «No esSencial, apoiamos a tua acção como primeiro-ministro, discordamos deste Governo e não nos identificamos com a actual direcção do PS».

Não foi por acaso que António José Seguro primou pela ausência.

Ele quis demarcar-Se de Sócrates; os outros, pelo contrário, quiSeram mostrar que estão com este.

Nunca fui um anti-socrático.

Elogiei-o mesmo, de início, porque era a única hipóteSe de Portugal ter um Governo estável.

E enalteci-lhe as qualidades de liderança.

Claro que, a partir do momento em que vim a saber que Se empenhava pessoalmente em tentar fechar este jornal, era-me impossível continuar a ter simpatia por ele.

Mas Sempre Separei as águas.

Um dia, na RTP, em pleno ‘caso Freeport’, Maria Flor Pedroso perguntou-me Se eu achava que Sócrates devia demitir-Se ou Ser demitido, e eu respondi mais ou menos o Seguinte: «Uma coisa é a Justiça, outra a política. Se a Justiça descobrir algo de incriminatório, logo Se verá. Mas não devem misturar-Se as duas coisas…

A maior parte das pessoas que foram ao lançamento do livro de Sócrates queriam mostrar que não o esqueceram – e tinham todo o direito de o fazer.

Mas há duas que não deviam ter ido: Noronha do Nascimento e Fernando Pinto Monteiro.

Primeiro, porque, tendo em conta a Separação de poderes entre Justiça e política, deveriam ter evitado participar num acto de indiscutível significado político neste momento.

Depois, porque eles foram os dois grandes responsáveis pela ilibação de Sócrates nos casos Freeport, Face Oculta e Tagus Parque Eram todos processos complicados, onde o nome do então primeiro-ministro aparecia envolvido – e, em todos, Sócrates passou entre os pingos da chuva, beneficiando, Segundo Se disSe, da protecção de Noronha do Nascimento e de Pinto Monteiro.

Noronha ordenou a destruição das escutas telefónicas afirmando que eram inócuas e que, Se as pessoas as ouvisSem, até perceberiam o ridículo de pensarem o contrário.

Mas, então, porque não deixou as pessoas ouvi-las, afastando definitivamente as suspeitas em relação a Sócrates? É que, mandando-as destruir, fez com que essas suspeitas perdurem paraSempre.

E sobra outra dúvida: Se as suspeitas eram objectivamente ridículas, como entender que o juiz de Aveiro as tenha validado no processo?

Sabendo-Se tudo isto, as preSenças de Pinto Monteiro e Noronha até pareceram uma provocação.

Foi como Se disSesSem: «Andaram a insinuar que éramos amiguinhos do Sócrates, pois tomem lá, somos mesmo!

Lula exprimiu o Sentimento geral ao dizer a Sócrates: «Você tem de voltar a politicar».

E dada a sua enorme vaidade e megalomania doentia, Sócrates é capaz de querer mesmo voltar.

E, Se isso acontecer, o universo de pessoas que o rodearam pode juntar-Se outra vez, nos mesmos cargos ou noutros.

A bem dizer, só Mário Soares já não está em situação de voltar a Belém.

Mas Se Sócrates voltasSe à política, dada a sua ânsia de vingar o passado, esSe regresso teria todos os ingredientes para redundar em tragédia.

José António Saraiva

Sol 2013.11.01

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