Não resisti em reproduzir este artigo de opinião de Fernanda Câncio porque só por ignorância ou estupidez poderemos ouvir dizer esta barbaridade “estamos pior que no 24 de Abril de 1974”

No fim da estrada
por FERNANDA CÂNCIO Ontem

A história está juncada de revoluções traídas. Escrito sobre a russa de 1917, Animal Farm, de Orwell, podia ser sobre quase todas: à esperança e ao deslumbramento iniciais seguem-se o terror de ver outros (ou os mesmos) tomarem o lugar dos antigos senhores.
Poucas – não vamos debater se o 25 de Abril foi ou não uma revolução – podem ser 40 anos depois celebradas sem que o essencial da sua promessa se tenha perdido. Mas por mais que haja quem, reclamando-se dos alvores abrilistas, decrete que do dia inicial de Sophia só resta um encantamento amargo, não é assim. Todas as suas grandes promessas foram cumpridas. A quem afiança que “há liberdade mas” e prossegue com “não há verdadeira democracia”, ou “verdadeira justiça”, ou “verdadeira igualdade”, certificando até, em alguns casos (entre os quais pontua, incrivelmente, Mário Soares), “viver-se pior agora do que pré-74”, só podemos apontar o caminho do Instituto Nacional de Estatística.
A paz, o pão, a habitação, saúde, educação – todas as reivindicações da canção Liberdade, de Sérgio Godinho, se concretizaram. Tínhamos uma guerra estulta e brutal – 169 mil soldados foram enviados para as colónias, morrendo mais de 8000 – e deixámos de ter. Havia fome – calcula-se que 10% da população portuguesa emigrou nos anos 60, grande parte “a salto”, para engrossar bairros de lata nos países de destino – e hoje, persistindo carência, desemprego e exclusão, não há comparação possível. Havia dezenas de milhares de barracas – grande parte das casas eram como barracas – e hoje são uma realidade residual. Havia números de mortalidade infantil africanos, uma rede hospitalar incipiente, e temos hoje um Serviço Nacional de Saúde que ombreia com os melhores e uma mortalidade infantil entre as dez mais baixas do mundo (só entre 1990 e 2011 diminuiu 77%). Em 1970, a taxa de analfabetismo raiava os 30%, hoje é 5%; a taxa de escolarização no secundário era 3,8%, agora é 72,3%; os doutoramentos contavam-se anualmente em dezenas, agora são milhares.
Quem, do PC ao PNR, passando por este Governo de maçães, resume os 40 anos a “desperdício”, “corrupção” e “traição” não está bem da cabeça. Outra coisa é dizer que é tudo perfeito, que chegámos ao fim da estrada da canção de Gomes Ferreira (o escritor, não confundir). Aliás, a ideia de que um golpe de Estado nos colocaria, por milagre, na terra do leite e do mel, bastando-nos agradecer a dádiva, comunga da infantilidade amorfa que nos fez, como país, aguentar 48 anos de uma ditadura tacanha. Se há falhanço nestas quatro décadas é esse – o de tanta gente achar que a política é uma coisa que lhe acontece, não algo que se faz. Ter nojo “dos políticos”, achando que “são todos iguais”, entregando-lhes ao mesmo tempo o destino, é capaz de ser uma grande estupidez – e para isso é que, de certeza, não foi feito o 25 de Abril.

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