Talvez porque o Banco de Portugal tem sido dirigido por uma administração de incompetentes o actual ministro das finanças foi rejeitado

Impedido de chefiar o Departamento de Estudos Económicos do Banco de Portugal, cujo concurso tinha ganho, Mário Centeno virou-se para a intervenção cívica e política. Retrato de um ministro das Finanças que tem um raciocínio matemático e que nunca perde a calma nem grita nas situações de maior pressão. Dizem-no leal, íntegro, vertical e um homem bom
Nicolau Santos
Diretor-Adjunto
A economia portuguesa está em boas mãos? Essa é uma pergunta que certamente muitos fizeram quando Mário Centeno foi escolhido para ministro das Finanças de Portugal por António Costa, depois de ter liderado o grupo de 12 economistas que elaborou o programa económico com que o PS se apresentou às eleições de 4 de outubro de 2015. Centeno era um ilustre desconhecido da esmagadora maioria dos portugueses e o seu trajeto ligava-o quase exclusivamente à sua universidade, o Instituto Superior de Economia e Gestão, e à sua carreira técnica no Banco de Portugal. Parecia uma boa pessoa. Mas seria um bom ministro?
Serão seguramente os resultados económicos do país a ditar a imagem com que os portugueses ficarão de Mário Centeno. Mas uma coisa é incontornável: além de ser um dos maiores especialistas nacionais em mercado de trabalho, com dezenas de artigos publicados em revistas internacionais, tem um currículo académico brilhante. Basta comparar. Desde 23 de julho de 1976, Portugal teve 23 ministros das Finanças. Destes, só sete se doutoraram. E dos que o fizeram, só dois se doutoraram nas duas melhores universidades de economia e gestão do mundo: Miguel Beleza, no MIT, e Mário Centeno, por Harvard. Centeno partilha aliás com Miguel Beleza o facto de ambos terem tido professores que vieram a ser Prémio Nobel de Economia: Paul Samuelson (1970), no caso de Beleza, Oliver Hart (2016) no caso de Centeno.

Este ponto é de sublinhar porque há um preconceito segundo o qual a competência técnica reside nos economistas de centro-direita. Miguel Beleza dizia mesmo há alguns anos, com humor e ironia, que havia dois tipos de economia: a microeconomia e a má economia, distinguindo assim aqueles que fazem incidir os seus estudos no comportamento das empresas e das famílias e os que olham a economia com uma visão de helicóptero, analisando sobretudo os grandes agregados macroeconómicos e tirando conclusões a partir deles. Os primeiros estariam predominantemente no espaço político de centro-direita e os segundos no centro-esquerda.
Ora, entre os ministros das Finanças doutorados há um relativo equilíbrio entre direita e esquerda: para Cavaco Silva (York University, Reino Unido), Miguel Beleza (MIT, EUA), Braga de Macedo (Yale University, EUA) e Vítor Gaspar (Faculdade de Economia da Universidade Nova de Lisboa) contrapõem-se Ernâni Lopes (Universidade Católica Portuguesa), Luís Campos e Cunha (Columbia University, EUA), Fernando Teixeira dos Santos (South Caroline University, EUA) e Mário Centeno (Harvard, EUA).
Contudo, o atual ministro das Finanças não se fica por aqui. Tem um longo e brilhante currículo académico: é licenciado em Economia (1990) e mestre em Matemática Aplicada (1993) pelo Instituto Superior de Economia e Gestão da Universidade Técnica de Lisboa, e mestre (1998) e doutorado (1995-2000) em Economia pela Harvard University, nos Estados Unidos. Alcançou 20 valores no exame de entrada na faculdade, ficando no percentil 99 no exame internacional de acesso às universidades americanas.
Quando se olha para um currículo assim espera-se sempre estar perante uma pessoa que, enquanto aluno, deveria ser um rato de biblioteca, vivendo enfronhado nos livros e centrado no estudo. Nada mais errado. Se todos os que conviveram com ele nos bancos da universidade não têm dúvida de que era um excelente aluno (foi o melhor do curso, com uma média de 16, batendo por algumas décimas Renata Mesquita e José Carlos Mateus), também foi muito ativo no domínio associativo (a lista que integrava venceu as eleições de 1986, tendo ficado com os pelouros do planeamento desportivo e da representação institucional) e desportivo (jogava râguebi na equipa do ISEG quando esta se encontrava na 1ª Divisão, na posição de ponta; foi dirigente federativo da modalidade; e também não dispensava as futeboladas com os colegas (não era excecionalmente habilidoso mas cumpria muito bem, diz quem o viu jogar, embora a posição em campo não fosse definida, porque no pelado inclinado que existia no ISEG a tática era sempre a mesma: todos ao molho e fé em Deus — digo eu que também joguei lá muito).
“Era uma pessoa normal, bem disposta, gregária, muito sociável. Não era uma pessoa tímida nem retraída. Não era nenhum nerd”, diz Luís Costa, professor associado do ISEG e colega de Centeno desde o primeiro ano de faculdade, que assinala a capacidade que o atual ministro das Finanças tinha para se manter como um dos melhores alunos do curso — “era e é uma pessoa muito acima da média” — ao mesmo tempo que dedicava longas horas à associação de estudantes — “a associação dava-lhe muito trabalho”. Também Sérgio Figueiredo, atual diretor de informação da TVI, que entrou no ISEG no mesmo ano que Centeno, sublinha esses traços. “Era o matemático da turma. Sempre que precisávamos de ajuda sabíamos a quem tínhamos de ligar.” Apesar dos elogios, Centeno cultiva a modéstia ou algum prurido quanto ao seu trajeto académico. “Terá sido o melhor ou um dos melhores alunos no seu curso de doutoramento em Harvard. E aí mostrou as capacidades que tem”, diz Luís Costa. Contudo, acrescenta, Centeno “nunca toca nestes assuntos. Desvia a conversa. É uma pessoa modesta e não gosta de falar deste tema.” Sérgio Figueiredo corrobora: “O Mário é uma pessoa normal, como qualquer um de nós.”

Curiosamente, terá sido um acaso que levou Centeno para o Departamento de Matemática do ISEG e não para o Departamento de Economia quando começou a dar aulas. Com efeito, quando foi aberto um concurso para assistentes estagiários para este último departamento, Mário Centeno não se encontrava no país e não pode comparecer às entrevistas. Ficaram as duas partes com muita pena mas não havia nada a fazer. O concurso tinha fechado. Por isso, quando abriu outro concurso mas agora para o Departamento de Matemática, Centeno concorreu, entrou e acabou por fazer o mestrado em Matemática Aplicada (1993), sendo orientado por Teresa Almeida.
António Mendonça, ex-ministro das Obras Públicas, Transportes e Comunicações e antigo presidente do ISEG, corrobora a boa imagem de Centeno: “Acompanhei a vida do Mário Centeno como estudante e fui acompanhando o seu percurso ao longo dos anos. Tenho a melhor impressão dele, enquanto estudante. Foi sempre um aluno exemplar e, além disso, teve tempo para participar nas atividades estudantis, com entusiasmo. O seu percurso académico posterior é impecável e sempre desempenhou as funções que assumiu profissionalmente com competência, reconhecida por todos. Pessoalmente, é de uma simpatia intrínseca, bem humorado e de fácil relacionamento. Era estimado por colegas e professores.”

Miguel Saint Aubyn, igualmente professor no ISEG, tem também “muito boas recordações” de Centeno, quer como “excelente aluno” quer pelo seu envolvimento no movimento associativo. Já depois de ter concluído o curso trabalhou com Vítor Constâncio no sentido de desenvolver um modelo macroeconómico para Portugal. E pertence à UECE — Unidade de Estudos sobre Complexidade e Economia, que Saint Aubyn também integra.
Banco de Portugal: ascensão e queda
Após chegar dos Estados Unidos, onde esteve a tirar o doutoramento entre 1995 e 2000 e onde nasceu Tiago, o primeiro dos seus três filhos, Mário Centeno, portador já na altura de um currículo invejável, candidata-se e entra para o Banco de Portugal. Contudo, “não entrou como uma estrela mas para aprender”, diz Luís Costa, que não ficou surpreendido quando Centeno apostou no banco central. “Estava dentro da esfera de interesses da maior parte de nós e era uma excelente oportunidade.”
Centeno agarra a oportunidade e a partir de 2004 passa a ser o diretor-adjunto do poderoso Departamento de Estudos Económicos do Banco de Portugal. Permanece no cargo até 2013 e quando a então diretora do departamento, Ana Cristina Leal, sai para integrar a administração da Caixa Geral de Depósitos, concorre ao concurso internacional aberto pelo banco para preencher o cargo. Apresentam-se mais de uma dezena de candidatos. Centeno vence o concurso, mas, para surpresa geral, o banco encerra o processo sem escolher o novo diretor, alegando não se ter encontrado ninguém que reunisse “a combinação de atributos necessária para assegurar o padrão de liderança e de gestão de equipas” e que “garantisse a prossecução de um mais ambicioso posicionamento estratégico do departamento nos planos analítico e institucional”.

Como é óbvio, a história estava muito mal contada e cheirava a esturro por todos os lados. O facto é que durante o período de assistência, com o correspondente programa de ajustamento, vários economistas começaram a fazer ouvir a sua voz, criticando as opções políticas que estavam a ser seguidas. Mário Centeno foi um deles. “Houve mais pessoas a envolver-se na política e a pronunciar-se sobre a situação económica do que numa altura normal”, admite Luís Costa. Talvez tenha sido isso que o tenha levado a envolver-se mais no debate político-económico, acrescenta. Lembra, contudo, que “antes já tinha havido algumas tomadas de posição perante determinadas opções económicas que tinham dado alguma polémica”, nomeadamente em relação ao mercado de trabalho em Portugal.
Pode ter sido um artigo de opinião ou alguma discordância pública com as opções do Governo PSD/CDS ou as suas intervenções nas reuniões com a troika. O certo é que para a petite histoire ficará que Vítor Gaspar, então ministro das Finanças, não gostou de algumas das posições de Centeno, nomeadamente de uma conferência que organizou. Ou então terá sido o próprio governador, Carlos Costa, que se colocou claramente ao lado das opções governativas durante o período de ajustamento, que se terá sentido ele próprio visado pelas declarações do atual ministro das Finanças O certo é que aconteceu algo impensável. Em mais de uma dezena de candidatos, quadros do próprio Banco de Portugal, nenhum serviu ao governador para dirigir o Departamento de Estudos Económicos. E a seguir Carlos Costa nomeou para o cargo Isabel Horta Correia, quadro da instituição desde 1990, mas que nem sequer tinha concorrido.

“Foi um processo difícil para ele porque era uma coisa de que gostava”, admite Luís Costa. “O episódio marcou-o profundamente”, frisa Margarida Aguiar, diretora do Banco de Portugal e ex-secretária de Estado da Segurança Social. “Primeiro ficou muito admirado que não o tivessem convidado para concorrer ao cargo, o que costuma ser normal fazer-se. Depois ficou ainda mais admirado e surpreendido quando o concurso foi encerrado sem qualquer resultado. Sentiu-se injustiçado e muito triste com a instituição. Para ele houve uma quebra de lealdade, de confiança”, adianta. “Tinha todas as condições para ocupar o cargo, desde o currículo académico ao facto de ser vice do Gabinete de Estudos Económicos”, acrescenta Miguel Saint Aubyn. Na altura, o Expresso apresentou uma prova cega aos seus leitores com os currículos resumidos dos três diretores anteriores (Vítor Gaspar, Maximiano Pinheiro e Ana Cristina Leal) à data de entrada em funções, comparando-os com o de Mário Centeno, e perguntando: qual dos detentores destes currículos não reúne condições para ser diretor do Gabinete de Estudos Económicos do Banco de Portugal? Centeno tinha seguramente o currículo mais sonante.
Para escorar a sua decisão e afastá-lo de todo do Gabinete de Estudos Económicos, o governador fez passar a mensagem que Centeno teria violado com as suas posições de crítica às opções do Governo, sobretudo em relação ao mercado de trabalho, o dever de reserva a que supostamente todos os membros do Banco de Portugal estão sujeitos. Em declarações à revista “Visão”, em outubro de 2015, Centeno esclarece o que o dividia face ao Executivo de Passos Coelho: “Quando o anterior Governo pensou nestas medidas [austeritárias] achou que os jovens acomodariam o seu nível de vida e ficariam cá a empobrecer. Isso não aconteceu.” Para calar a polémica, que causou um profundo incómodo no Banco de Portugal, Carlos Costa convidou Centeno para diretor-adjunto, com funções de consultor da administração e um mandato para desenvolver um estudo sobre Reformas Estruturais e Processos de Ajustamento — que obviamente não se concretizou. Na prática, colocou-o numa prateleira. E terá sido aí que nasceu a decisão de se envolver mais profundamente no processo, que culminaria com as eleições legislativas de 4 de outubro de 2015. Ironia das ironias, foi assim Carlos Costa que, ao afastar Centeno do DEE, o lançou na senda de uma maior intervenção cívica e política (pois passou a ter bastante mais tempo livre), o que acabou por o levar a ministro das Finanças — com quem ele, Carlos Costa, tem agora de dialogar. “Um diálogo institucional”, sublinha Centeno. Nem mais nem menos que isso. Mas, como sublinha Margarida Aguiar, “as relações no plano institucional entre o Governo e o Banco de Portugal nem sempre são fáceis. Às vezes, beneficiam das boas relações pessoais entre o ministro e o governador. Neste caso, não beneficiam”.
“Não conheço o processo que o levou a assumir responsabilidades de natureza mais política. Primeiro, a nível da elaboração da plataforma económica do PS. Depois, a nível governamental”, diz António Mendonça. “De certo modo, foi uma surpresa para mim a sua escolha para o exercício das funções de ministro das Finanças. Não que lhe não reconheça competências para tal, mas porque pensava que estaria mais orientado para outras responsabilidades, mais técnicas. Mas as coisas são o que são. Os desafios aparecem e temos de decidir. Penso que terá sido o caso”, refere o ex-ministro das Obras Públicas.
Miguel Saint Aubyn também diz que foi “bastante surpreendente” o empenhamento de Centeno quando aceitou liderar o grupo de economistas que elaborou a proposta económica do PS às eleições. “Não me lembro de ele ter qualquer militância, a não ser na juventude”, diz. Luís Costa afina pelo mesmo diapasão. “Foi uma surpresa? Sim e não. Sim quando ele apareceu à frente do grupo de economistas. Mas já não quando ele aceitou ser ministro das Finanças.” Margarida Aguiar garante que não ficou surpreendida “nem com uma coisa nem com outra. Olhou para o convite como um grande desafio e uma grande oportunidade. Era um grupo difícil devido à diversidade de pessoas e do pensamento económico. Mas levou o trabalho até ao fim. O que não estaria à espera é que o PS não ganhasse as eleições. Tinha a perspetiva que ia ter responsabilidades políticas”, mas não num Governo apoiado pelo Bloco e pelo PCP, a quem o programa do Executivo teria de fazer cedências.
Sulista. Não elitista. Liberal
Mas como é que um especialista no mercado de trabalho é primeiro convidado para liderar um grupo de economistas que tem de apresentar uma proposta de crescimento económico para Portugal e é depois convidado para ministro das Finanças? Bom, Centeno gosta sempre de lembrar aos que apontam a sua inexperiência em matéria de Finanças Públicas, que também Janet Yellen é especialista em mercado de trabalho e isso não a impediu de ser escolhida para presidir à Reserva Federal em 2013, sucedendo a Ben Bernanke, continuando a ocupar o cargo. Na verdade, foi mesmo aquilo em que é especialista que levou ao convite, que lhe foi feito pessoalmente por Vieira da Silva, o atual ministro do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social, que já o chamara em 2006 para colaborar na Comissão do Livro Branco para as Relações Laborais, embora algumas das suas ideias estejam claramente longe do ideário socialista.
Com efeito, sob a chancela da Fundação Francisco Manuel dos Santos, Centeno lança em 2013 o livro “O Trabalho, Uma Visão do Mercado”, onde sustenta que a dualidade do mercado de trabalho é um dos grandes problemas nacionais (a par das baixas qualificações da esmagadora maioria dos trabalhadores), com os trabalhadores mais velhos muito protegidos, ao contrário dos mais jovens, onde predominam os baixos salários e os contratos precários. A sua proposta é a de um contrato único, acabando com os contratos a prazo, mas garantindo a adaptabilidade de trabalhadores e empresas às condições económicas. Defende também a criação de um seguro de desemprego, com uma conta individual para cada trabalhador e que a taxa contributiva das empresas para a Segurança Social esteja ligada à rotatividade dos trabalhadores, para assim incentivar os vínculos de trabalho mais duradouros.

Estas propostas — e um outro estudo onde concluía que o aumento do salário mínimo pode ter efeitos negativos no emprego de trabalhadores pouco qualificados; ou um artigo onde criticava o excesso de regulação, que terá contribuído para a segmentação do mercado de trabalho e para dividir os trabalhadores dentro das empresas; ou a proposta de defesa de mecanismos conciliatórios com vista ao despedimento por comum acordo — levaram a que fosse catalogado como tendo um pensamento liberal. O atual ministro não concorda com o rótulo mas o certo é que as suas propostas não integraram o programa com que o PS se apresentou às eleições e muito menos o programa do Governo.
Parafraseando Luís Filipe Menezes no congresso do PSD em 1995, quando catalogou os que criticavam a sua presidência de “sulistas, elitistas e liberais”, Mário José Gomes de Freitas Centeno é seguramente sulista (nasceu em Olhão a 9 de dezembro de 1966, o segundo de quatro filhos de uma funcionária dos CTT e de um bancário), não elitista, como referem todos os relatos atrás descritos, mas liberal de esquerda no que toca ao mercado de trabalho para os cânones do PS.
Casou com uma colega do ISEG, tem três filhos a quem meteu o vício do râguebi e todos eles estão encaminhados, do ponto de vista académico, para as ciências económicas. Já não tem lugar cativo no Estádio da Luz, mas continua a ser benfiquista convicto e praticante. Fala e escreve espanhol fluentemente. Domina também o inglês, francês e italiano e tem boa compreensão do alemão. Foi premiado internacionalmente pelas suas investigações sobre o mercado de trabalho, a primeira em 2001, quando recebeu o Young Economist Award, da European Economic Association, visando distinguir trabalhos de investigação de economistas com menos de 30 anos ou com o doutoramento concluído há menos de três anos; e a segunda em 2006 quando lhe foi outorgado o Scientif Merit Award, da União Latina.

Margarida Aguiar, que trabalhou diretamente com ele no Banco de Portugal, é quem lhe traça o retrato mais fino. “É uma pessoa com uma extraordinária capacidade de trabalho, invulgar mesmo. É leal, franco, vertical e íntegro. Preocupa-se muito com a sua integridade. É uma pessoa muito inteligente e de raciocínio muito rápido. Reage com muita qualidade de pensamento e opinião a realidades complexas, com muitas variáveis em simultâneo, conseguindo produzir conclusões rapidamente. Trabalha muito bem com números. Baseia o seu raciocínio, pensamento e decisões em números. Tem um grande treino e muita facilidade em trabalhar e interpretar números. Era um fontanário. Produzia dados e indicadores como eu nunca tinha visto, que lhe permitem fazer a interpretação da realidade. É uma pessoa muito virada para o quantitativo.” Contudo, isso não o impede de ser “uma pessoa disponível”, acrescenta Margarida Aguiar, “que gosta de conversar, seja com um contínuo, uma secretária ou um técnico. Acaba por ser uma pessoa modesta. Despenderá todo o tempo necessário para dar utilidade à conversa. Não é arrogante. Nunca lhe diz que só tem cinco minutos para si. Despende tempo com os outros. É uma pessoa atenciosa, um humanista”.

E o poder mudou-o como pessoa? “Até agora, nada”, garante Luís Costa. “Mas a figura política vai mudando. O Mário que tomou posse como ministro não é o mesmo de hoje. Aprendeu com a opinião pública.” Contudo, apesar da enorme pressão a que tem estado sujeito, quer por parte de Bruxelas e do Eurogrupo quer por parte da oposição, em particular do PSD, o ministro mantém o seu comportamento fleumático. “Nunca o ouvi dar um grito, nunca o vi irritar-se com ninguém. Mantém-se sempre calmo”, diz quem trabalha com ele no Ministério das Finanças. Sérgio Figueiredo concorda: “No ISEG, o Mário era mais acelerador do que amortecedor de crises. Mas não é propriamente esfíngico. Não é como o Vítor Gaspar, que nunca se percebia como estava. Quando tinha de se irritar, irritava-se. Mas mesmo sob pressão nunca perdia o discernimento. É sobretudo um ‘bonzão’. Não faz mal a uma mosca. Era incapaz de mentir e foi sempre muito autêntico, como se vê ainda hoje.” Sérgio Figueiredo faz contudo uma distinção. “Uma coisa é o nível da associação de estudantes ou da escola. Outra é estar a navegar em águas que não são as dele.” O poder, contudo, afastou-os. “Eu perdi o contacto pessoal com ele. Penso que foi a defesa dele, até talvez para proteger a nossa amizade. Hoje é uma pessoa muito mais defensiva. Vive com um ar agastado e ele não é assim.” E isso provavelmente porque, considera o diretor da TVI, lhe está a ser pedido um trabalho muito difícil, “onde confluem todas as contradições” do Governo à oposição, de Bruxelas ao primeiro-ministro. Há uma característica, contudo, que não se alterou. “O Mário é sobretudo muito leal. Isso não muda. Mesmo nos silêncios tenta proteger os que estão abaixo e acima.” E precisa: no caso da CGD, tem sido “vítima da sua inexperiência mas também da sua honestidade. Até ao momento não mentiu. Tossiu, omitiu. Enquanto não teve a certeza que não havia nada escrito não falou. E não entrega a cabeça de ninguém”.
Artigo publicado na edição do EXPRESSO de 26 de novembro de 2016

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